Guiões de chamada

Cobrar uma fatura por pagar: o guião telefónico

Cobrar um atraso é pedir dinheiro a alguém que se quer manter como cliente. Os dois objetivos não se opõem, desde que se respeite uma cronologia.

Charles Baldet Charles Baldet 10 min de leitura Atualizado a

A chamada de cobrança é aquela que ninguém quer fazer. Adia-se, envia-se um email em vez dela, depois um segundo, e três meses mais tarde há um crédito antigo e uma relação estragada pelo silêncio, e não pelo pedido.

Cobrar sem estragar a relação

Domina uma ideia falsa: pedir o que nos é devido prejudicaria a relação comercial. É o contrário. O que a estraga é a acumulação não dita, e depois o tom que sobe de repente ao fim de três meses.

Um fornecedor que cobra a horas, com calma, é um fornecedor sério. Um fornecedor que nunca cobra é um fornecedor cujas faturas ficam para o fim, o que é racional do ponto de vista do cliente.

Em resumo

Na maioria dos casos, o atraso não é uma recusa de pagar: é um esquecimento, uma fatura bloqueada num circuito de validação, ou um documento em falta. A chamada serve, antes de mais, para saber qual dos três.

A cronologia das interpelações

Momento Ação Registo
V menos 5 Mensagem de cortesia antes do vencimento Informativo
V mais 3 a 7 Chamada, primeiro contacto Neutro, presume-se o esquecimento
V mais 15 Chamada, recordar o compromisso assumido Firme, cita-se a data prometida
V mais 30 Chamada a anunciar a interpelação escrita Formal, anuncia-se o passo seguinte
V mais 40 Carta registada com aviso de receção Jurídico

A mensagem antes do vencimento é a mais rentável da lista e a mais esquecida. Elimina metade dos atrasos por distração, e não tem nada de uma cobrança, uma vez que ainda nada é devido.

O que é preciso ter à frente

  • O número da fatura, o montante, a data de emissão e a data de vencimento.
  • A data de envio e o meio de transmissão.
  • O nome da pessoa que encomendou, e o do departamento que paga.
  • O histórico dos pagamentos anteriores: um bom pagador que derrapa merece um tom diferente do de um atrasado crónico.
  • Os compromissos assumidos nas chamadas anteriores, com a respetiva data.

Este último ponto decide a firmeza da segunda chamada. «Tinha-me dito dia 12» não tem o mesmo peso que «tinha-me dito que ficaria tratado».

A chamada de cobrança, palavra a palavra

Primeira chamada, uma semana depois do vencimento
Você

Bom dia, Senhor Almeida, fala Miguel Antunes da Skipcall. Ligo por causa da fatura 2026-118, de 2 400 €, vencida a 31 de agosto. Queria confirmar que lhe chegou.

O motivo é anunciado numa frase, com as referências. Nenhuma fórmula de desculpa, nenhuma censura.

Ele

Ah, não sei, isso é a contabilidade que trata.

Você

Com certeza. Então duas coisas: para quem posso reenviá-la, para ter a certeza de que está no circuito, e qual é o vosso prazo habitual depois de lá entrar?

Não se contesta o reencaminhamento para terceiros, usa-se para obter um nome e um prazo.

Ele

Envie para contabilidade@, costumam pagar em quinze dias.

Você

Perfeito. Reenvio esta manhã para contabilidade@ e ponho-o em cópia. Nessa base, um pagamento por volta do dia 20 parece-lhe realista?

Transforma-se um prazo vago numa data. É essa data que tornará possível a segunda chamada sem levantar o tom.

Ele

Sim, deve dar.

Você

Muito bem. Resumo-lhe isto por escrito já a seguir. Se alguma coisa bloquear do lado deles, diga-me, encontramos uma solução. Bom dia.

As quatro respostas clássicas

O que ele diz O que você pede
«Não recebi a fatura» O endereço exato, e reenvio imediato durante a chamada
«É a contabilidade que trata» O nome do contacto e o prazo habitual do circuito
«Temos um problema de tesouraria» Um plano de pagamento escrito, com uma primeira prestação datada
«Há um litígio sobre o serviço» O ponto concreto contestado, e o pagamento da parte não contestada

A terceira resposta merece ser levada a sério em vez de combatida. Um cliente em dificuldade que lho diz dá-lhe uma informação que os outros fornecedores não terão. Um plano de pagamento aceite e cumprido vale mais do que uma cobrança contenciosa.

A quarta deve ser isolada de imediato. Um cliente só pode suspender o pagamento se o incumprimento invocado for suficientemente grave e a sua reação proporcionada: um litígio sobre uma linha não justifica, em princípio, o bloqueio da fatura inteira.

O momento em que o tom muda

Muda na segunda chamada, e só se um compromisso datado não tiver sido cumprido. A mudança deve ser percetível sem ser agressiva: cita-se a data prometida, constata-se, anuncia-se o passo seguinte.

Tom que descarrila

«Há dois meses que ando atrás de si, isto é incrível.»

Firmeza factual

«No dia 12, indicou-me um pagamento por volta do dia 20. Estamos a 28 e a fatura continua em aberto. O que é que bloqueou?»

A pergunta final é essencial. Deixa uma saída, e diz-lhe se o problema é administrativo ou financeiro, o que exige duas continuações muito diferentes.

O que a lei prevê

Nas transações comerciais entre empresas, os juros de mora comerciais são exigíveis a partir do dia seguinte à data de vencimento, sem que seja necessária qualquer interpelação, e acresce-lhes uma indemnização mínima de 40 € por custos de cobrança. Este montante decorre do regime europeu dos atrasos de pagamento, transposto para o direito português.

Se os seus custos de cobrança ultrapassarem esses 40 €, o excedente razoável pode ser reclamado mediante justificativos. A taxa dos juros de mora comerciais não é livre: resulta da taxa de referência do Banco Central Europeu acrescida da margem prevista na lei, e é fixada periodicamente e publicada em Diário da República. Confirme a taxa em vigor no semestre antes de a indicar numa fatura.

Estes elementos mencionam-se com calma, como um facto, não como uma ameaça. «Prefiro que resolvamos isto antes de os juros começarem a correr» lembra que o atraso tem um custo, sem transformar a conversa num conflito. Indicar o regime aplicável nas suas condições gerais e na própria fatura evita a discussão no momento em que ela seria mais cara.

Antes da cobrança judicial

A interpelação escrita é a etapa charneira antes de qualquer ação. A carta registada com aviso de receção impôs-se porque data o pedido e guarda a prova. Depois dela, o procedimento de injunção é a via habitual para obter um título executivo sobre uma dívida não contestada. Anuncie a carta na última chamada: um cliente que a descobre sem aviso considera a relação rompida, ao passo que um cliente avisado paga muitas vezes antes de ela seguir.

Reduzir os atrasos a montante

  • Verificar o circuito de faturação na assinatura, e não no primeiro vencimento. Nome, endereço, referência de encomenda eventual.
  • Enviar uma mensagem cinco dias antes do vencimento. A medida mais eficaz do conjunto, e a menos dispendiosa.
  • Guardar o registo dos compromissos assumidos ao telefone. Uma data prometida e reencontrada três semanas depois muda inteiramente a relação de forças.

Sobre este último ponto, o que vale para a venda vale para a cobrança: a gravação e a transcrição permitem citar uma data exata em vez de uma memória aproximada, desde que as pessoas tenham sido previamente informadas.

Para o registo escrito que se segue a cada uma destas chamadas, os modelos do email de seguimento após uma chamada adaptam-se diretamente: a mesma exigência de brevidade, a mesma função de prova.

Perguntas frequentes

Quando se deve cobrar uma fatura por pagar ao telefone?

Entre três e sete dias depois do vencimento. Demasiado cedo, passa por minucioso; para lá de duas semanas, a sua fatura passou para trás das dos fornecedores que ligaram antes de si.

É melhor cobrar por email ou por telefone?

Por telefone, com confirmação escrita logo a seguir. Um email sozinho é tratado quando o cliente tiver tempo; uma chamada obtém um compromisso com data, e o escrito fixa-o.

Que tom adotar numa cobrança?

Neutro e factual, nunca acusatório na primeira chamada. Na maioria dos casos trata-se de um esquecimento ou de um circuito de validação interno, não de uma intenção de não pagar.

O que fazer se o cliente continuar sem pagar depois de duas chamadas?

Passar à interpelação escrita, por carta registada com aviso de receção. É uma mudança de registo que deve ser anunciada na última chamada, nunca descoberta pelo cliente na caixa do correio.

Podem cobrar-se juros de mora?

Entre profissionais, os juros de mora comerciais e a indemnização mínima de 40 € pelos custos de cobrança são devidos a partir do dia seguinte ao vencimento. Mencioná-los com calma lembra que o atraso tem um custo.

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